


Crianças sem futuro
Perdidas em ruas cheias de gente
Numa denuncia silenciosa
Da hipocrisia social espalhada pelo mundo
Percebida por coraçoes ainda capazes
De indignar-se com a desumanizaçao
Das pessoas
Em Olinda
Lançam-se aos turistas
Com seu inglês nordestino
De guias turísticos não autorizados
Embaçando a imagem postal
Do patrimônio histórico mundial
Da vergonha pernambucana
Em Recife
Espalham o horror ‘trombadinha’
Desfilando a simples vista
Num espetáculo inacreditável
De filmes trash, alá Hicthcock
De cruenta realidade
Em João Pessoa
São ‘mãos bobas’
Deslizando por bolsos de cansados viajantes
‘Cuspidos’ pela Itapemirim, São Geraldo, Progresso, Guanabara...
Em pleno centro da cidade
Empapado de camelôs e repressão policial
Em Salvador
Símbolo histórico do descaso ao povo afro-brasileiro
‘Inocentes’ sobem e descem as ladeiras do Pelourinho
Repetindo cenas do Brasil colonial
No caos imposto e ordenado
Dos vendedores de artigos artesanais nativos
E turistas desencaixados e alienados
Da paisagem social
Em São Paulo
A truculência policial impoe uma ordem ambígua
Entre a lei e o ilegal
Formando novas geraçoes de delinquentes profissionais
Famosos e temidos
Frequentando os telejornais censacionalistas
Que espargem sangue em nossas casas
Na hora do jantar
Em Barcelona
Símbolo europeu do desenvolvimento capitalista
Adolescentes insuspeitos batem carteiras no porto
Lembrando a verdade de “La ciudad Mentirosa”
De Manuel Delgado
Que denuncia a fraude e a miséria do modelo barcelonês
Decepcionando a quem chega
Crendo numa sociedade ‘desenvolvida’
Menos desigual que as latino-americanas
Em Viena
Crianças estrangeiras fazem-nos reviver
Cenas de metrôs brasileiros
Cantando, tocando e implorando
“Uma ajuda pra minha família que tá passando fome...”
Em uma autência globalizaçao
Da miséria
(...)
As crianças de hoje, de ontem
E de qualquer lugar do mundo
Catingueira, Maranguape ou Viena
São as sementes de nossa indiferença
Um artefato nuclear jogado nas ruas
Que evitamos ver
E insistimos em pisar
Para que explodam antes da hora
E sejam ecarceradas e esquecidas
Em calabouços medievais
Mas
O ‘Ministério da Indignação’ adverte que
Igual que brincar com fogo
É pensar que as pessoas
Por mais desumanizadas que se tornem
Nunca vão levantar sua voz
E escancarar a execrável hipocrisia
De quem pisa as pessoas
Com sapatos de couro de peixe